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De Douglas Moreira
Professor na Escola Cacau – Bragança Paulista SP
Esta peça, escrita pelo professor Douglas Moreira, surge como uma expressão artística que celebra a espiritualidade dos orixás e riqueza da cultura afro-brasileira. A apresentação faz parte da Festa de São João, integrando elementos da cultura popular brasileira com as tradições de matriz africana, como uma forma de fortalecer a diversidade, o respeito e o reconhecimento das raízes que formam nosso povo.
Músicas utilizadas na apresentação original:
Canto das Três Raças – de Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte
Saravando Xangô – de João Nogueira e Paulo César Pinheiro
Deusa dos Orixás – de Romildo Bastos e Toninho Nascimento
Na vida se cai – de Zé Keti
CENA 1 — A CHEGADA DOS NARRADORES
Iniciar com a música: “Canto das Três Raças”, com uma roda olhando para o centro.
Narrador 1:
Venham ver, venham ouvir,
Uma história antiga, que o vento sabe,
que o tambor guarda e que o povo canta.
Narrador 2:
Hoje, com todo respeito e devoção,
contaremos uma grande história.
Uma dessas que bate lá no fundo do coração.”
Narrador 3: Uma história que conta a alma do nosso povo
e que como o sangue pulsa em nossas veias.
História de fogo, de coragem e de justiça.
Uma história de Xangô!
Música: “Saravando Xangô”
(Dança de Xangô)
CENA 2 — O NASCIMENTO DO FOGO E DA JUSTIÇA
Narrador 4:
No tempo em que o tempo era novo,
nasceu entre o povo um menino de olhos de fogo.
Era Xangô. Ainda sem coroa. Ainda sem trovão.
(Xangô entra e faz brincadeiras)
Narrador 5:
Durante a infância provocava desordens na cidade,
Sua brincadeira a favorita era a batalha
e ele sempre assumia a chefia,
ditando ordens
sempre que podia.
( Xangô sai para se preparar para entrar como adulto mais sério).
Narrador 6:
Quando atingiu a idade adulta
a sua coragem o conduziu para o mundo
em busca de aventuras, fama e sucesso,
levando consigo seus elementos de poder:
Um Oxé e um saco de couro
pendurado no ombro esquerdo,
onde guardava pedras de raio
e um axé poderoso.
Xangô (entra com tochas nas mãos e fala):
(Som de trovões)
Ouço trovões. Eles me chamam.
Mas não me obedecem.
Vejo injustiças,
mas não sei como calá-las.
(Xangô se senta em seu trono e coloca as tochas ao lado)
Narrador 7:
Um dos atributos mais notáveis de Xangô
era seu senso de justiça
quando julgava as questões do reino ou das pessoas.
(Entra o Ancião do Tambor, tocando de forma lenta e ritmada e logo em seguido o Zé da Lenha entra correndo e ofegante.)
Zé da Lenha:
Vocês ouviram aquele trovão? Parecia um rugido de onça brava ou até mesmo o meu estômago quando ronca.
(olha Xangô sentado em seu trono e se espanta)
Zé da Lenha:
Eita, quem é esse? Tá com fogo no olho! Vai cozinhar milho com esse olhar ou botar o mundo pra assar?
(sonoplastia engraçada)
Xangô:
Quem és tu, que fala com tanto barulho quanto o céu?
Zé da Lenha ( põe a mão no peito):
Eu? Zé da Lenha, seu criado! Lenhador, dançador e – nas horas vagas – adivinho de chuva! Cuidado que essa sua chama, pode se apagar.
(Xangô se zanga e há uma sonoplastia de trovão).
Ancião do Tambor (sorrindo):
Cuidado e respeito.
Está em frente a Xangô o orixá do trovão.
Desculpe a petulância.
É que as vezes ele fala muita besteira.
Mas, há vezes que na sua simplicidade,
o riso dele também ensina.
Zé da Lenha:
Ah, isso eu ensino mesmo!
Ensinei até o meu galo a não cantar de madrugada.
Agora ele canta só depois do café.
Narrador 8:
Xangô em seu reino, com seu temperamento inquieto,
sentido que havia cumprido a sua missão,
agora precisava de estímulos novos
Xangô:
Busco o caminho da justiça. Mas não sei por onde ir…
Zé da Lenha:
Ué, começa por aqui mesmo. Bota os pés na terra e anda!
E na vida se cai, se leva rasteira e quem nunca caiu não é capoeira…
(Coro canta e Zé da Lenha faz movimentação de capoeira).
Ancião do Tambor:
Escuta antes de agir.
O trovão serve a quem escuta.
A justiça vive no coração dos calmos.
No reino das divindades
outra força existia.
Seu nome é Iansã
e dos ventos tudo ela sabia.
Para trazer mudanças e transformações
suas tempestades purificam
e também renovam.
Viva a força dos ventos
Viva Iansã!
(saudação de Iansã)
(Iansã entra ao som da música)
Música: Deusa dos Orixás
(Dança de Iansã)
Iansã:
A justiça é vento que varre,
fogo que aquece,
machado que guia.
As tempestades da vida
temos que passar.
Não há forma de se esconder
mas há formas de encarar.
Eu cuido das mulheres
e da força da proteção.
Comigo estão protegidas
Com amor e devoção
(Saudação de Iansã)
Zé da Lenha:
A mentira cresceu.
O riso virou medo.
E o povo se calou.
(o povo entra fazendo injustiças e maldades)
Xangô:
Vocês gritam, mas não dizem.
Acumulam, mas não compartilham.
Pisam, mas não plantam.
Figura da Mentira:
Quem és tu para nos calar?
Xangô:
Sou aquele que não cala, mas revela.
Que não ataca, mas equilibra.
(Xangô com seu machado amedronta os injustos)
Todos:
Machado no alto, trovão no céu,
a justiça não falha, Xangô é fiel!
Fogo que aquece, não queima em vão,
no reino do axé pulsa o coração.
CENA 3 — O ENSINAMENTO DE XANGÔ E IANSÃ
Iansã:
Depois da tempestade, o silêncio.
Depois da justiça, a escuta.
(Xangô caminha entre o povo. Pausa. Olhar firme.)
Xangô:
O machado não pesa quando corta o que está torto.
A palavra não fere quando fala a verdade.
Se quiserem me honrar,
façam justiça onde estiverem.
Iansã:
O futuro se faz com coragem e tambor.
Em mensagem de aliança e respeito
pedimos a todos àqueles
de puro coração
que a beleza seja admirada,
que a verdade seja defendida.
E que a nobreza seja venerada
Ancião do Tambor:
Que os calados sejam ouvidos.
Que o povo possa ser respeitado.
Que a força do fogo
queime os opressores
e renove seus corações,
para que aos retos caminhos
a regência divina
nos guie e nos proteja.
(Finalizar com todos cantando o Canto das Três Raças e uma roda olhando para fora.)
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