5 de novembro de 2026

O Raio de Micael

conto de Astrid Mª Weissenborn


Há não muito tempo existia um país muito perto daqui, governado por um rei sábio e por sua bela e sábia filha.
O que havia de especial naquele país não era apenas o fato de estar situado geograficamente em um lugar privilegiado, mas também porque, há muito tempo, não havia nele guerras, disputas nem brigas entre seus habitantes. Eles não tinham a menor ideia do que fossem a inveja, as más ações, os pensamentos sombrios etc. Por tudo isso, todos viviam em paz e harmonia.

Certamente, o que os ajudava a manter essa paz era o fato de que, todas as manhãs, a princesa saía à sacada do palácio e escutava atentamente o seu povo. As pessoas podiam contar-lhe suas preocupações, seus planos e seus sonhos. Ela ouvia tudo com muita atenção e depois transmitia tudo ao seu pai, o rei.

Naquele país, os jovens sempre diziam:

— Vivemos no melhor país do mundo porque temos tudo: rios, praias, pradarias com árvores frutíferas, hortas com verduras, os animais vivem felizes e livres, as pessoas podem trabalhar e conquistam o que possuem com o suor de seu rosto. Nosso clima também nos favorece: desfrutamos das quatro estações, que nos trazem a chuva, o vento, a neve e o calor no momento certo.

— Ainda assim, existe algo ainda mais especial — diziam esses rapazes.
— Temos, nada menos, que um vulcão aqui perto.
E, quando os jovens repetiam isso, as pessoas muito idosas, de cem anos ou mais, balbuciavam:
— Hm, hm, hm.
Então os jovens riam repetidamente daqueles anciãos, que, além disso, sempre terminavam dizendo:
— Hm, hm, hm.
— Nós sabemos algo que vocês não sabem.
E os mais jovens riam ainda mais e faziam ouvidos moucos aos mais velhos, como se não lhes interessasse nem um pouco aquilo que eles tinham a dizer.
Certa manhã, ao amanhecer, todos acordaram sentindo um cheiro estranho, que foi aumentando ao longo do dia. Um dos habitantes percebeu que, do lugar onde se acreditava que se erguia o mencionado vulcão, saíam como que nuvens de fumaça.
Nos dias seguintes, isso persistiu e já estava difícil respirar. Tudo cheirava a queimado, como a enxofre, e o nariz de todos ardia. O cheiro era tão forte que os habitantes começaram a se preocupar de verdade e não tiveram outra alternativa senão pedir à princesa, certa manhã, quando ela saísse à sacada, que falasse com seu pai, o rei, e que os ajudasse, pois já quase não era possível viver ali.
Era muito possível que o chamado vulcão pudesse entrar em erupção a qualquer momento.
O rei ouviu atentamente sua filha. Ficou pensando durante bastante tempo, mas não encontrou nenhum meio de protegê-los da provável erupção do vulcão, do fogo que ele iria expelir e da lava e das pedras que cairiam sobre eles.
Como o próprio rei não sabia o que fazer, perguntou, angustiado, se alguém do povo tinha alguma ideia para descobrir o que estava acontecendo.
Então um jovem teve a ideia de perguntar justamente àqueles anciãos que, quando se falava do vulcão, diziam:
— Hm, hm, hm. Nós sabemos algo que vocês não sabem.
Mandaram chamá-los o mais rapidamente possível e perguntaram:
— O que vocês sabem sobre esse vulcão?
E os velhos contaram o seguinte:
— O que vocês acreditam ser um vulcão não é um vulcão. É uma caverna onde vive um dragão. Um ser vivo e real que precisa de alimento.
— Antigamente, ele se alimentava de nossas invejas, nossas brigas, nossos palavrões e nossas más ações. Naquela época, da qual vocês não podem se lembrar, o dragão estava muito bem alimentado, sem que as pessoas tivessem a menor ideia disso. Mas, com o passar do tempo, felizmente, as pessoas daqui começaram a mudar para melhor, e o bicho deixou de engordar, entrando numa espécie de sono. Agora, parece que ele despertou e voltou a ter fome.
As pessoas ficaram assustadas, sem saber o que fazer. A única coisa que sabiam agora era que aquele monstro queria voltar a se alimentar de alguma ação dos habitantes.
— O que faremos agora, se já não existem entre nós brigas nem maus pensamentos?
Olharam para a caverna, e a fumaça saía cada vez mais negra e… com mais fogo!
O rei, então, teve uma ideia brilhante:
— Precisamos prender o dragão para evitar a catástrofe!
Para isso, mandou chamar os pedreiros, carpinteiros e serralheiros, para que tentassem fechar a caverna do dragão.
Os pedreiros construíram um muro alto em sua entrada, os serralheiros soldaram uma enorme cúpula de ferro, os carpinteiros colocaram vigas e troncos por cima, mas o dragão saiu e, com uma patada, destruiu tudo.
Então tentaram os soldados do exército a cavalo, atirando-lhe suas lanças afiadas… mas elas apenas provocaram alguns arranhões no dragão. Em seguida, ele lançou sobre eles seu hálito de fogo, e tiveram de fugir para não serem queimados vivos.
Quando o rei soube disso, ficou muito assustado, mas insistiu que alguém dali deveria ter a solução para vencer o dragão.
De repente, um jovem se adiantou e propôs a todos:
— E se perguntarmos ao dragão o que ele quer? Talvez ele mesmo nos dê a solução.
Para alguns, pareceu uma má ideia, pois já sabiam do que ele havia se alimentado antigamente: o pior de suas ações. Outros, porém, acharam que valia a pena perguntar, mas ninguém queria fazer a pergunta a uma criatura daquele tamanho.
Então o próprio rapaz se ofereceu para fazê-la.
Subiu a uma colina diante da caverna e, com todas as suas forças, gritou:
— Dragão, dragão, o que você quer de nós?
Fez-se um grande silêncio, mas, depois de algum tempo, o dragão exclamou:
— Quero comer!
O jovem gritou:
— Gostaríamos de alimentá-lo, mas não sabemos o que você quer. Nós não somos mais os mesmos, mudamos e já não podemos oferecer-lhe aquilo que lhe dávamos antigamente.
O dragão respondeu:
— Pois então, se agora é assim, vocês me darão… uma donzela do país, uma vez por ano!
E voltou para sua caverna.
O jovem, cabisbaixo, voltou ao palácio com a triste notícia e a contou a todos.
Então os conselheiros e os anciãos se reuniram e pensaram sobre o que o jovem havia anunciado. Finalmente, decidiram fazer o que o dragão pedia, embora, para o rei, que tinha apenas aquela única filha, essa condição parecesse impossível de cumprir.
Todo o povo ficou sabendo da terrível notícia e, entre todos, apenas as donzelas se reuniram com a princesa e decidiram fazer alguma coisa: conversar sobre como salvar o país do terrível dragão.
— Nós vamos ajudar. Faremos um sorteio com pedrinhas, a maioria brancas e uma preta. Aquela entre nós que, por destino, tirar a preta será oferecida neste outono!
Essa drástica decisão foi comunicada ao rei e este, muito contrariado, finalmente teve de aceitá-la.
E assim aconteceu que, durante vários anos, no começo do outono, tal como estamos agora, realizava-se um sorteio com pedrinhas, e uma das jovens era escolhida para ser entregue ao dragão.
Todo o povo a acompanhava até a colina diante da caverna. Então a jovem seguia sozinha em direção àquele buraco de fogo, sem que ninguém soubesse o que lhe acontecia depois.
Todos os começos de outono transcorreram da mesma maneira durante muitos anos.
Até que, certa vez, a escolhida foi ninguém menos que a própria princesa.
Seu pai não suportou a ideia e chorou muito, mas, no fim, não teve outra alternativa senão aceitar o resultado. Autorizou que sua querida filha fosse sacrificada por seu país.
A moça, como sempre fazia, saiu naquele mesmo dia à sacada, diante de seu povo, para comunicar quem havia sido escolhida, e teve de revelar seu próprio nome.
Fez isso sem medo nem tristeza e apenas pediu às pessoas que, por favor, participassem ativamente do acontecimento e a acompanhassem até a caverna com muita música e alegria, como se fosse uma grande e solene festa de despedida.
De fato, seu último desejo foi realizado: todas as pessoas do país, e também seu pai, acompanharam-na naquele dia até a entrada da caverna.
Os músicos tocaram durante todo o caminho as melodias mais belas, alegres e animadas que conheciam.
Ao chegarem à entrada da gruta, a moça ficou sozinha diante dela. Os sons da música começaram a se apagar.
E então, das profundezas da terra, entre fumaça, fogo e faíscas, surgiu o monstro, rugindo e soltando fogo pela boca, dando sinal de que a jovem deveria entrar.
Todos recuaram, assustados, como em todas as outras vezes.
Mas, dessa vez, aconteceu algo especial: lá de cima, do mais alto do céu encoberto, as nuvens começaram a se separar, como se uma coroa se abrisse, e, de seu interior, surgiu um raio de luz claro e penetrante.
Todos puderam ver como aquela “espada” caía sobre a terra.
Era uma Luz, a espada de Micael, que, atraído pela coragem da princesa e pelo canto tão belo, desceu para ajudá-los a vencer o feroz dragão.
Assim, o fulminante raio de luz caiu velozmente sobre a criatura, com tamanha força e decisão que penetrou em seu corpo verde-escuro, fazendo com que a fera caísse de bruços dentro do buraco, sem que jamais se voltasse a saber qualquer coisa sobre ela.
Foi então que o povo, que havia permanecido perplexo e quase mudo de medo, começou a reagir, murmurando e dando gritos de alegria, entoando cantos e começando a dançar de uma maneira que vocês nem podem imaginar.
E, se já não terminaram, ainda continuam dançando e festejando.

Publicado originalmente em https://ideaswaldorf.com/

https://institutoruthsalles.com.br/o-raio-de-micael/
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