Capítulo do livro Pedagogia Waldorf 100 anos+
Foto de André Telles – Casa Áurea Escola Waldorf – Petrópolis RJ
Estilo de Vida, Alimentação, Educação e Saúde
O grande mistério da saúde se resume em responder à pergunta: O que causa a saúde? Por que algumas pessoas são mais resilientes do que outras a agentes patogênicos ou a situações de estresse, mantendo-se saudáveis enquanto outras adoecem?
O médico grego Hipócrates, considerado por muitos o “pai da medicina”, buscava orientar seus pacientes a viver em harmonia com os elementos. Para tanto, prescrevia ginástica, música, teatro, dança, uma alimentação leve, banhos, hábitos saudáveis, um estilo de vida agradável e de boa qualidade, filosofia e meditação. Curar seria restabelecer esta harmonia original perdida. Na antiguidade, várias correntes da medicina, como a grega, a chinesa e a hindu, ou ayurveda, atuavam mais no sentido de tratar a saúde, para evitar que as pessoas adoecessem, do que tratar as doenças.
Durante o último século, o estilo de vida humano mudou radicalmente. De uma sociedade majoritariamente rural, que vivia no ritmo das estações do ano e com padrões de vida bem mais simples, tornamo-nos uma sociedade urbana, altamente tecnológica e competitiva, com um ritmo de vida muito acelerado.
Um dos impactos dessas mudanças foi sobre a nossa alimentação. Passamos a consumir cada vez mais alimentos processados industrialmente, com diversos aditivos químicos, alimentos cultivados com o uso intensivo de adubos químicos e agrotóxicos de vários tipos, e alguns produzidos com sementes transgênicas. No Brasil um dos reflexos disso foi o crescimento exponencial da obesidade. Segundo dados do IBGE, entre 2003 e 2019 a proporção de obesos entre as pessoas com 20 anos ou mais cresceu de 12,2% para 26,8%, e a população com sobrepeso cresceu de 43,3% a 61,7% no mesmo período, com graves reflexos na saúde pública. O uso de agrotóxicos, por sua vez, causa intoxicação em milhares de trabalhadores rurais todos os anos, inclusive crianças, e deixa resíduos nos alimentos que são tolerados pela legislação brasileira em níveis muito maiores do que pela União Europeia. Essas substâncias são encontradas também em níveis perigosos em muitos alimentos in natura, nos industrializados e até na água potável que consumimos.(1)
Os agrotóxicos, além de comprovadamente cancerígenos, são substâncias neurotóxicas, causam má formação congênita, retardos no crescimento e TDAH. Também são substâncias que causam disrupção endócrina, isto é, modificam o funcionamento normal do sistema endócrino, provocando um aumento significativo de diabetes e obesidade em crianças. Nas gônadas masculinas e femininas estimulam no organismo das crianças a puberdade muito precoce. O uso de agrotóxicos no Brasil tem se configurado, portanto, como um problema da maior gravidade, sobretudo para a infância. (2) Larissa Mies Bombardi
A agricultura que precisamos para termos acesso a alimentos saudáveis é aquela feita ‘em comum acordo’ com a natureza, ou seja, aquela que respeita os ciclos e processos naturais, o meio ambiente e a sustentabilidade dos recursos utilizados. A agroecologia, a agricultura orgânica e a biodinâmica, por exemplo, são técnicas agrícolas que enriquecem o solo e preservam a vitalidade das plantas, e assim também vitalizam quem delas se alimenta. Além das substâncias nutritivas e da ausência de venenos, este alimento ainda traz a pura e saudável energia da natureza.
O ritmo acelerado do estilo de vida urbano tem sido imposto também à educação, onde a alfabetização vem sendo feita cada vez mais cedo, antes mesmo que a criança desenvolva o domínio da sua geografia corporal e sua motricidade. Até os 7 anos a criança precisa brincar muito, sempre que possível ao ar livre, onde possa correr, pular, saltar, subir em árvores, equilibrar-se, balançar-se, brincar com bola, pular corda, pedalar etc., que são atividades que ajudam a desenvolver a sua motricidade grossa. Precisa vivenciar o que é embaixo, em cima, frente, trás, direita e esquerda.
Também deve realizar atividades manuais que desenvolvam a motricidade fina, como desenhar, recortar, colar etc. Esse preparo físico antes de começar a ser alfabetizada, vai deixá-la pronta para iniciar seu aprendizado, além de ser um investimento muito importante para sua saúde futura. Quando a educação acelera o processo de intelectualização da criança, ela está consumindo forças vitais que farão falta na vida adulta. Este pode ser um dos motivos para que, hoje, muitos adultos ainda jovens já apresentem problemas de saúde que seriam próprios da velhice.
Outro fator que impacta na saúde hoje é o estresse causado pelo alto estímulo ao consumo e pela apologia do progresso material, que leva pessoas a viverem como único objetivo de acumular bens, status social, glamour e poder, em busca de um sucesso efêmero, que nunca satisfaz. Outros fatores estressantes muito graves são a desigualdade e a pobreza, que afetam a dignidade humana.
Apesar de todo acúmulo de conhecimento que a humanidade realizou até hoje, continuamos sendo o mesmo ser humano, do ponto de vista físico, anímico e espiritual, e, como passamos a viver de forma, muitas vezes, contrária à natureza humana, nos tornamos mais suscetíveis a novos estados patogênicos. Muitos de nós já sentiram os efeitos maléficos causados à nossa saúde pelo estresse provocado pelas demandas da sociedade que criamos. Perda de resistência, doenças cardíacas, metabólicas e nervosas são comuns atualmente.
No entanto, o mais grave nesta questão é que o que afeta a vida dos adultos também impacta fortemente sobre a saúde das crianças. Nós, adultos, ainda temos a capacidade de racionalizar sobre o que acontece conosco, podemos conversar com amigos sobre o caso, pedir opiniões, fazer terapia etc., o que nos permite enfrentar, até certo ponto, os estresses da vida, sem que eles nos afetem com maior gravidade, mas com as crianças é diferente. A criança, principalmente no primeiro setênio, não consegue elevar a um nível de consciência o que recebe do mundo e elaborar alguma coisa com isso para se proteger. Ela não consegue “compreender” e aceitar, sem traumas, situações de estresse familiar, por exemplo. Assim, o que a criança recebe do mundo se incorpora rapidamente à sua constituição orgânica, pois até a época da troca dos dentes, a criança está realmente configurando seu organismo. O estilo de vida contemporâneo apresenta riscos reais à saúde, principalmente pensando no futuro das crianças, e é importante que a escola seja um contraponto, uma linha de defesa para isso, assim como é necessário ampliar a consciência dos pais sobre o tema.
Esta visão a respeito do impacto negativo dos estresses sobre a saúde, que desarmonizam nossa vida, não é exclusiva da Antroposofia ou da Pedagogia Waldorf. Desde a antiguidade, estudiosos já se preocupavam com isso. O princípio de buscar entender o que causa a saúde, de estudar as razões que levam alguém a estar saudável, foi pesquisado também pelo cientista Aaron Antonovsky, doutor em sociologia da saúde pela Universidade de Yale, que o denominou de Salutogênese. Antonovsky descreveu este princípio em seu livro de 1979, Health, Stress and Coping (Saúde, Estresse e Enfrentamento), seguido de seu trabalho de 1987, Unraveling the Mystery of Health (Desvendando o Mistério da Saúde).
A Salutogênese busca entender o que causa a saúde, e é o oposto do princípio da Patogênese, no qual se baseia a medicina contemporânea, que busca entender e tratar o que causa a doença, linha que é de interesse da poderosa indústria da medicina. A saúde não gera lucros para essa indústria, só a doença. Estudar a saúde humana a partir do conceito da Salutogênese representa uma completa inversão de paradigma.
As pesquisas e estudos realizados por Antonovsky levaram-no a concluir que, para mantermos a qualidade de nossa saúde, dependemos de um conjunto de capacidades que ele denominou de “senso de coerência” – SOC (sense of coherense), conceito que representa o nível de confiança, equilíbrio e resiliência com que cada indivíduo vive e enfrenta os estresses da vida, constituído por três capacidades básicas:
compreensibilidade (comprehensibility) – capacidade de compreender de forma ordenada, clara e consistente os estímulos, demandas e desafios decorrentes dos vários ambientes relacionados à sua vida – pessoal, profissional, social etc.
capacidade de gestão (manageability) – capacidade de atuar, a partir de seus recursos pessoais e sociais, perante os estímulos, demandas e desafios dos vários ambientes relacionados à sua vida, de forma a minimizar as possibilidades de ser atingido negativamente pelos acontecimentos.
significância (meaningfulness) – capacidade de encontrar significado e motivação para atuar perante os estímulos, demandas e desafios relacionados à sua vida, e superar situações de forma a não afetar a sua dignidade.
Segundo Antonovsky, este conjunto de capacidades permite ao indivíduo enfrentar, de forma segura e coerente, o estresse causado pelos acontecimentos que possam afetar a ordem na sua vida, e integrar estes acontecimentos como experiência de vida. Não é por acaso que nestas três capacidades você identifica Pensar, Agir e Sentir, as capacidades humanas cujo desenvolvimento está no cerne da Pedagogia Waldorf.
Antonovsky faleceu em 1994, mas suas teorias continuam sendo estudadas, e pesquisas em psiconeuroimunologia confirmam a relação entre o equilíbrio emocional e a saúde, contida na teoria da Salutogênese.(3)
A Antroposofia considera que a saúde do ser humano tem correlação com a forma como a criança é cuidada, alimentada e educada, desde a mais tenra idade, e acredita que a infância deve ser protegida. Por isso, a Pedagogia Waldorf procura realizar a educação com base em princípios que conduzam a um desenvolvimento com harmonia. Atua a partir de um conhecimento antropológico e de uma visão humanista, e busca adequar as atividades pedagógicas à idade das crianças e à sua maturidade natural para enfrentar os desafios que a cada ano lhe serão apresentados. Considera também o temperamento de cada uma, e realiza a educação a partir de uma organização rítmica saudável, enriquecida pelas diversas vivências artísticas oferecidas. Seus professores estão sempre disponíveis para orientar as famílias sobre como atuar em parceria com a escola para que as crianças desenvolvam de forma saudável todas as suas potencialidades.
Bibliografia
1. MAHON Cynthia, organizadora – O Grão e a Luz: A saúde da terra e da criança – 2019 p. 25
2. Idem MAHON, op. cit., p. 27.
3. LINDSTRÖM Bengt & ERIKSSON Monica – Contextualização da salutogênese e Antonovsky no desenvolvimento da saúde pública: Oxford Academic. Helsinki, 2006
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