4 de outubro de 2025

12 – O maternal e o jardim de infância

Capítulo do livro Pedagogia Waldorf 100 anos+

Foto de Alexandre Macedo – Escola Waldorf Acalanto – Holambra SP

“Se a criança é capaz de se entregar por inteiro ao mundo ao seu redor em sua brincadeira, então em sua vida adulta será capaz de se dedicar com confiança e força a serviço do mundo.” Rudolf Steiner

Nas escolas Waldorf, a educação infantil atende crianças de um ano e meio a três anos no maternal ou creche, e de três anos e meio a seis anos no jardim de infância, e algumas escolas também dispõem de berçário.

A palavra Educar provém do termo latino Educere, cujo significado é conduzir ou trazer para fora, e é o contrário de Inducere, que significa introduzir ou induzir. Portanto, educar é ajudar cada indivíduo a brotar de si mesmo, a desenvolver suas próprias competências. Nenhuma criança é um livro em branco onde devemos introduzir conteúdos e conceitos prontos, mas um rico universo a ser descoberto. Ela precisa do exemplo, da compreensão, do amor e do afeto dos adultos que a cercam para que possa desenvolver todas suas potencialidades, alcançar sua autonomia e realizar seus propósitos. É no primeiro setênio que tem início esse lindo processo de ajudar cada criança a florescer. Não por acaso nas escolas Waldorf as educadoras da educação infantil também são chamadas carinhosamente de jardineiras.

Nos jardins Waldorf há um ambiente de solenidade poética que permeia todas as atividades com as crianças. Em muitas escolas as mães e/ou pais que levam seus filhos reúnem-se numa grande roda com as crianças, as educadoras e funcionários antes do início das aulas, e fazem a leitura de um pequeno texto para reflexão, recitam um verso e todos dão as mãos num bom dia coletivo. Após essa roda, as educadoras recebem as crianças uma a uma na porta da classe de forma afetuosa e individualizada, e a sala de aula já está preparada para recebê-las. Elas sempre falam com as crianças em voz baixa e os vários comandos para as atividades são feitos de forma musical. Há pequenas canções para formar a roda, para sentar-se à mesa, para agradecer pelos alimentos, para sair para brincar fora, para voltar para a sala etc, e até para chamar a atenção de uma criança por um mau comportamento.

Foto de Henrique Rossi – Jardim Espaço Bem Viver – Embu das Artes SP

O ambiente da sala onde as crianças convivem entre si e com a educadora e sua auxiliar é saudável e acolhedor e bem parecido com o de uma residência. A sala tem uma pequena cozinha, onde as educadoras preparam o lanche comunitário com a ajuda das crianças, conforme a idade delas. As mais velhas ajudam a pôr a mesa, lavar as frutas, servir a comida, lavar os pratos e talheres etc; tem também um banheiro onde podem lavar as mãos e escovar os dentes, ajudando a desenvolver hábitos saudáveis. Após o almoço parte do espaço de brincar dá lugar a vários colchõezinhos para as crianças menores poderem dormir um pouco. Outro aspecto que remete ao ambiente familiar é que numa mesma turma do maternal e do jardim de infância convivem crianças de idades diferentes. No fim de cada ano os mais velhos do maternal vão para o jardim e os mais velhos do jardim vão para o primeiro ano do ensino fundamental. Desta forma, sempre há alunos maiores para ajudar os menores, como se fossem irmãos de uma mesma família. Todo ano os alunos maiores recebem os menores que chegam na turma, e tornam-se uma referência e exemplo para eles. Assim, mesmo uma criança que é a caçula na sua família poderá ter a vivência de ser a mais velha perante seus coleguinhas, ser admirada e liderar as brincadeiras.

O espaço externo é constituído por uma área verde natural, com grama, terra, caixa de areia, árvores onde as crianças possam subir e diversos brinquedos. Alguns são fixos, como balanço, escorregador, gangorra, caminho de tocos, casinhas etc, que ajudam no desenvolvimento motor e a exercitar o equilíbrio, a força e o domínio do espaço. Não se utiliza pisos industrializados, como EVA (Ethylene Vinyl Acetate – etileno acetato de vinila), nem brinquedos de plástico, fixos ou móveis. Os brinquedos móveis são carrinhos de mão, tabuinhas de tamanhos variados, tocos de madeira, água e outros materiais naturais, com os quais as crianças podem dar asas à imaginação e criar seus castelos, estradas, túneis, cabanas etc. Nesse ambiente as crianças também podem correr, se pendurar e balançar, se equilibrar, saltar, escalar, carregar materiais, empurrar carrinhos de mão, se exercitando de várias formas, interagindo e também conhecendo os seus limites. Até um pequeno tombo na terra e um joelho ralado são experiências importantes.

CEI Horizonte Azul – São Paulo SP – Foto do acervo da escola

O ambiente natural, onde há terra, grama, areia, árvores, água, madeiras etc estimula o desenvolvimento dos sentidos, oferece infindáveis possibilidades lúdicas e desafios para as crianças, e proporciona vivências insubstituíveis para estimular seu desenvolvimento de forma sadia. Toda escola precisa oferecer esse ambiente às crianças.

A principal atividade das crianças é o brincar espontâneo. É brincando de forma ativa e criativa que as crianças desenvolvem-se fisicamente, se situam no meio ambiente, conhecem o mundo e a si mesmas, desenvolvem sua coordenação motora, sua sociabilidade e sua imaginação, que será a base para o pensar racional no futuro. Algumas atividades e brincadeiras também são conduzidas pelas educadoras, mas brincar livremente, num ambiente acolhedor e preparado para proporcionar vivências sociais e lúdicas, sob o olhar cuidadoso e amoroso de um adulto, é a atividade mais importante para a criança no primeiro setênio.

Para que a criança realmente brinque de forma plena, com toda criatividade e autonomia de que for capaz, é preciso que ela se sinta segura no ambiente e acolhida pelas pessoas. Ela precisa confiar. O primeiro ambiente que a criança precisa conquistar é o seu próprio corpo, e precisa conquistar também o ambiente natural e o ambiente social. Ela precisa de espaço e condições para brincar com o próprio corpo, precisa de um ambiente natural estimulante onde possa brincar de forma segura e supervisionada, e de amigos para compartilhar as brincadeiras e desenvolver sua sociabilidade.

A condução desse processo pelas educadoras é um trabalho muito delicado que exige conhecimento, sensibilidade, amor e dedicação. Durante o brincar livre a interferência das educadoras é a menor possível, apenas observando cuidadosamente ou ajudando as crianças em alguma atividade que elas escolham, como pular corda, por exemplo. Nessa observação as educadoras vão conhecendo as crianças, suas dificuldades e sucessos, para assim poderem atuar de modo a ajudá-las no seu desenvolvimento e orientar os pais sempre que necessário. Segundo Renata Meirelles, “brincar é a forma das crianças fazerem poesia e nos contarem quem são, o que sentem, o que vivem, seus medos, seus potenciais, suas preferências e suas limitações.”(1)

Escola Comunitária Jardim do Cajueiro – Maraú BA – Foto do acervo da escola

Na educação infantil nas escolas Waldorf as crianças sempre têm um tempo para brincar na sala de aula e um tempo para brincar ao ar livre. Pode variar um pouco de uma escola para outra, mas geralmente, no jardim de infância as crianças têm cerca de uma hora para brincar livre na sala e uma hora para o brincar espontâneo ao ar livre, pela manhã. As crianças precisam de tempo para desenvolver suas brincadeiras, criar seus enredos e realizar suas fantasias. Para isso, são oferecidos materiais pouco prontos e naturais, para que o brincar estimule um esforço criativo das crianças.

Na sala de aula, além das mesinhas, cadeirinhas e outros pequenos móveis, há cavaletes, panos coloridos para criar cabanas, toquinhos de madeira de diversos tamanhos e formatos, sementes, bonecos de pano, pedrinhas, conchas, brinquedos de madeira, de bambu, capas e saias coloridas de algodão, coroas e outros adereços, tudo para ajudar a estimular a fantasia das crianças. Cada um desses objetos pode ser inúmeras coisas diferentes de acordo com a criatividade das crianças, que a cada dia encontram para eles novas finalidades, diferente dos tradicionais brinquedos industrializados e dos automatizados, que já tem uma função pré-determinada e dos quais a criança rapidamente se enjoa. Além de estimularem a criatividade, os materiais naturais proporcionam vivências sensoriais muito importantes, especialmente para o desenvolvimento do tato. Pela sua diversidade, permitem às crianças manipularem objetos de diferentes formas, pesos, consistências, temperaturas, texturas etc. Esta é uma das razões pelas quais os brinquedos de plástico, lisos e frios, não são usados.

O plástico não é um produto natural, e embora seja um produto nobre, com inúmeras aplicações importantes para nossa sociedade, não é ideal para a produção de brinquedos, do ponto de vista pedagógico e educativo, sendo, inclusive, a porta de entrada para o estímulo ao consumismo na infância, e com sérios impactos ambientais.(2)

Todas as atividades que as crianças realizam na escola compõem um ritmo planejado pela educadora. O ritmo diário inclui um tempo para o brincar livre na sala, uma atividade do dia, a arrumação da sala, preparar o lanche, lanchar, cuidados de higiene, brincar ao ar livre, a roda rítmica, ouvir a história, almoçar, descansar etc. Esse ritmo sempre obedece uma alternância entre elementos de descontração e elementos de concentração. Todos os dias seguem o mesmo ritmo, mas há também o ritmo semanal, pois em cada dia da semana há uma atividade do dia conduzida pela professora. Exemplo: segunda fazem pão, terça pintam com aquarela, quarta tocam o kântele, quinta fazem euritmia, sexta cuidam da horta. Também podem fazer modelagem com cera de abelhas, desenhar com giz de cera, comemorar aniversário de um coleguinha, fazer tricô de dedos, ajudar a limpar a sala no ‘Dia do Brilho’ etc. E há também o ritmo das épocas, que costumam durar cerca de quatro semanas e cujos temas se baseiam principalmente nas estações do ano e nas festas comemorativas. As histórias que são contadas e o conteúdo da roda rítmica diária se relacionam sempre com o tema da época. O ritmo com que as atividades se realizam a cada dia traz segurança e calma para as crianças, pois elas já sabem o que vai acontecer.

O bom desenvolvimento da oralidade é a base para o aprendizado da escrita e da leitura, no ensino fundamental. Atuam neste sentido a roda rítmica, os diversos comandos musicais usados na transição das atividades, a contação de histórias, a declamação de poemas e pequenos teatros com bonecos ou marionetes. A roda rítmica é uma atividade dirigida pela educadora, onde as crianças formam um círculo e uma história é narrada com poemas, canções e sincronizada com movimentos. As canções, poemas e narrativas também atuam no desenvolvimento da imaginação e da capacidade de interpretar as imagens, as mensagens e os significados que elas carregam.(3)

Escola Waldorf Acalanto – Holambra SP – Foto de Renata Arruda

O dia do aniversário de uma criança na educação infantil Waldorf é sempre muito comemorado. Ela receberá uma coroa e uma capa especial para usar durante este dia, e será o centro das atenções. Sentará sempre em uma posição de destaque, seja na roda ou durante o lanche, que poderá ser na sala de aula ou na área externa como um piquenique, quando será cantado o “Parabéns” e cortado o bolo. A mãe e o pai ou responsáveis também são convidados para participar, e os coleguinhas poderão oferecer presentinhos singelos feitos por eles mesmos, como um desenho, por exemplo. Os pais também poderão trazer uma história que se passou com a criança, para ser contada a todos nesse dia. Cada professora organiza esse dia com todo carinho, para que se torne uma lembrança especial para cada aniversariante.

O primeiro setênio é uma etapa delicada do desenvolvimento humano, porque o que acontece nesta fase terá reflexos positivos ou negativos em toda a vida da pessoa. Brincar, para a criança, é uma coisa muito séria, é o mais importante da vida delas naquele momento. É como elas desenvolvem seu corpo, sua sociabilidade e sua tolerância, e exercitam sua autonomia e sua moralidade. Mesmo crianças que tenham passado por violência e sofrimento conseguem, através do brincar, criar outros mundos com sua imaginação para superar seus traumas. O brincar livre traz autoconfiança, ensina a conviver com as diferenças, deixa a criança feliz e a prepara para a vida e para os aprendizados futuros. Por isso, a educação infantil precisa ser conduzida a partir de um conhecimento profundo das características e necessidades das crianças nesta idade, por educadoras preparadas, amorosas e conscientes da importância de seu trabalho.

Bibliografia

1. MEIRELLES, Renata – educadora, pesquisadora e documentarista – https:// territoriodobrincar.com.br/
2. ZUIN, Vânia Gomes – coordenadora da pesquisa. Infância Plastificada – O impacto da publicidade infantil de brinquedos plásticos na saúde de crianças e no ambiente. Encomendada por Instituto Alana e Programa Criança e Consumo. São Paulo: GPQV/UFSCAR, 2020.
3. LEVY, Paula e LAVIANO, Rosemeire e FARIAS, Vanda Elisa. BNCC e Pedagogia Waldorf – Etapa da Educação Infantil. São Paulo: FEWB 2020.

 

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