Capítulo do livro Pedagogia Waldorf 100 anos+
Foto de Patrícia Palmiro – Espaço Livre Ecoara – Valinhos SP
“A arte de educar, como arte social, abrange todas as demais artes e necessita delas como meio.”(1) Heinz Zimmermann
Nas escolas Waldorf são ensinados todos os conteúdos exigidos pela legislação brasileira, além de outros, mas sempre permeados por atividades artísticas. O conceito de educação como obra de arte social compreende a forma de o professor atuar entre os alunos, de modo a promover o fluir e a harmonia das relações e o desenvolvimento harmônico de suas capacidades humanas de pensar, sentir e agir. Na Pedagogia Waldorf a arte se confunde com a própria pedagogia e como toda arte, exige conhecimento, sensibilidade e ação.
Rudolf Lanz chama a atenção para o fato de o intelectualismo estar dominando a educação e as matérias científicas. Segundo ele, o homem moderno, de forma consciente ou não, dá uma exagerada importância para a abstração, a fórmula, a quantificação e a tecnologia, em detrimento de uma abordagem mais ampla, que inclua vivências estéticas e pensamentos não mecanicistas. Sustenta que “as crianças que vivem nesse ambiente são modeladas pela sua influência. Daí a tendência para uma atrofia de sua personalidade total e para um bitolamento de seu modo de pensar.” Por este motivo as matérias artísticas, manuais ou corporais, que estimulam o aluno à ação e às sensações, têm grande valor pedagógico e terapêutico quando exercitadas com regularidade, pois ele precisa poder criar algo que seja resultado de sua imaginação, usando a vontade, a perseverança, a coordenação psicomotora e o senso estético.(2)
A arte de educar se baseia no conhecimento das leis que regem o desenvolvimento do ser humano, e deve permitir que os alunos construam uma relação viva com os conteúdos curriculares. Clouder considera que a arte de educar consiste na capacidade de despertar conhecimentos para a vida. O autor sustenta que, mesmo antes da criança começar a compreender o mundo de modo consciente, ela já o percebe através de seus sentimentos. “Para ela é tão importante o sentido estético das aulas como o seu conteúdo, e isso deve ser tido como um elemento essencial em toda a educação”.(3)
Assim, consideramos que tanto a escola quanto a sala de aula devem constituir um ambiente estético. A cor do prédio, as pinturas e os desenhos dos alunos nas paredes, a disposição dos móveis, os desenhos do professor na lousa, os cadernos dos alunos, a forma como o professor se apresenta e age perante os alunos, todos estes elementos despertam percepções de ordem estética.
“As crianças olham, observam e aprendem! Não só tem efeito sobre elas o conteúdo da aprendizagem, mas também a experiência global. É necessário ter-se consciência de que a própria criança é um artista que trabalha constantemente no desenvolvimento de seu próprio corpo e das suas capacidades. No período compreendido entre os 7 e os 14 anos, a criança converte em imagem interior todas as interações com o ambiente e, por isso, o professor deve ser capaz de responder, não só em termos intelectuais, mas também artísticos.”(4) Christopher Clouder
A realização do ensino com sentido estético, e estruturado com atividades artísticas, passa pela capacitação artística do professor. Trata-se de um processo difícil para alguns, já muito enrijecidos, mas ao perceber o quanto o trabalho com a arte fortalece sua autoestima, o professor passa a acreditar no benefício destas atividades para seus alunos. Segundo Craemer, “os grandes obstáculos à nossa atuação no social são nossos preconceitos, nossa forma rígida de ver as coisas, nossos hábitos endurecidos de comportamento. A prática artística tem o poder de pôr em movimento os nossos enrijecimentos internos, de nos tornar mais leves, mais flexíveis, mais tolerantes. Além disso, ela nos dá prazer e eleva nossa alma através da beleza.”(5), Por isso, a formação de um professor Waldorf também é uma formação artística, e exige uma constante autoeducação.
Toda educação é autoeducação e nós, como professores e educadores, somos, em realidade, apenas o entorno da criança educando-se a si própria. Devemos criar o mais propício ambiente para que a criança se eduque junto a nós, da maneira como ela precisa se educar por meio de seu destino interior.(6) Rudolf Steiner
Embora numa escola Waldorf exista o professor de trabalhos manuais – que geralmente ensina modelagem com argila, pintura, entalhe em madeira etc, assim como há o professor de música, uma parte das atividades artísticas é ensinada pelo próprio professor de classe, pois elas vão permear todas as matérias. Nas escolas públicas onde já se aplica essa pedagogia, e que não dispõem de professores de música e trabalhos manuais, esse desafio é maior ainda.

Escola Waldorf Rural Turmalina – Paudalho PE – foto do acervo da escola
Estas atividades são essenciais para que o professor consiga organizar ritmicamente suas aulas e torná-las interessantes e significativas. É muito bom quando o professor sabe tocar flauta, executar um exercício de ritmo, cantar, declamar um poema, pintar com aquarela, desenhar na lousa, contar uma história ou encenar uma pequena peça teatral com seus alunos. No entanto, o mais importante aqui não é a qualidade artística do professor, mas o esforço de se superar e dar este exemplo aos alunos. Por isso a capacitação do professor é essencial para que ele possa estar apto a usar estas atividades como ferramentas didáticas. Embora o desafio não seja pequeno, os resultados que ele traz, tanto para a educação de seus alunos, como para a autoestima do professor, são valiosos e eficazes. Assim, os professores têm seu repertório didático enriquecido e aprendem a ensinar de uma forma “viva”, que torna seu trabalho mais prazeroso e produtivo para ele e para os alunos.
Na escola Waldorf são ensinadas artes das duas correntes artísticas – a plástico-pictórica e a poético-musical. Elas têm sentidos distintos: enquanto a plástico- pictórica trabalha mais no sentido da individualização do homem, a poético-musical trabalha no sentido da socialização, e justamente por isso se completam. Quando uma criança faz uma pintura ou um entalhe em madeira, sua vontade individual está sendo trabalhada, e quando representa uma peça de teatro ou canta junto com seus colegas, sua sociabilidade é que caminha pela arte.
Trataremos a seguir das principais atividades artísticas que as crianças conhecem e praticam nas escolas Waldorf, mas começaremos pelo desenho de lousa, que é uma arte praticada pelo professor de classe.

Instituto Impulso – Bauru SP – Alunos aprendendo desenho de lousa no curso de formação para professores Waldorf – foto do acervo da escola
O desenho de lousa é aprendido pelo professor Waldorf, e é muito importante no sentido estético da aula, para preencher com beleza o conteúdo a ser ensinado. O capricho com que o professor prepara a lousa para cada época, ou matéria, desperta o interesse dos alunos pelo tema a ser estudado e serve de parâmetro e incentivo para que eles também procurem fazer cadernos bonitos e organizados. Nas escolas Waldorf as lousas são pretas, para permitir um bom resultado dos desenhos com giz colorido. Os desenhos mais elaborados são feitos pelo professor em horários em que os alunos não estão na sala, e eles aguardam com expectativa e entusiasmo o momento de verem cada nova lousa. As escolas costumam ter lousas articuladas, que dão mais flexibilidade ao professor para trabalhar.

Colégio Waldorf Micael – São Paulo SP – professora do 7° ano fazendo um desenho de lousa – foto de Marcos Muzi
Bibliografia
- ZIMMERMANN, Heinz. As Forças que Impulsionam a Educação. 1997, p. 15.
- LANZ, Rudolf. A Pedagogia Waldorf.1990, p. 116.
- MCALICE, Jon e GÖBEL, Nana, et al (Coord.) – Christopher Clouder. Pedagogia Waldorf .1994, p. 34.
- Idem op. cit., MCALICE, Jon e GÖBEL, Nana, et al (Coord.) – Christopher Clouder. p. 35.
- Depoimento em São Paulo, 2008.
- STEINER, Rudolf. A Prática Pedagógica. São Paulo: Editora Antroposófica, 2013, p. 56
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