1 de outubro de 2017

15 – Desenho de formas – da alfabetização à geometria

Capítulo do livro Pedagogia Waldorf 100 anos+

Escola Aitiara – Botucatu SP – Foto de Rubens Salles

 

“O exercício constante nos leva a percorrer um caminho que é aprimorado aos poucos, lentamente; ele nos leva a lapidar nossas inclinações naturais. A compreensão da trajetória e, portanto, da atuação do Desenho de Formas na organização humana, é uma conquista alcançada após a persistência necessária para inúmeras repetições.”(1) Luiza Lameirão

 

O desenho de formas é uma atividade pedagógica criada por Rudolf Steiner, e é usada a partir do 1° ano escolar. Nesta etapa, o desenho de formas constitui a base para o aprendizado da escrita.

Durante o primeiro setênio, toda a energia da criança está dedicada ao seu desenvolvimento corporal e motor, e naturalmente voltada para a prática de gestos amplos, como correr, pular, saltar, escalar etc., mas, a partir dos 6/7 anos, ela já está preparada para desenvolver habilidades mais finas. A escrita é uma das habilidades humanas mais importantes e expressivas e o professor Waldorf busca auxiliar a criança a desenvolvê-la a partir de vivências baseadas em seus impulsos naturais.

A criança pequena já se aventura a desenhar, e podemos perceber que seus rabiscos sempre se baseiam em duas formas básicas: a reta e a curva. Assim, o que fazemos é partir desta iniciativa natural da criança, que no começo é constituída por rabiscos caóticos, e levá-la a desenhar formas cada vez mais harmoniosas. Assim como a criança aprendeu a andar, se movimentar e falar, a conquista da linguagem escrita deve ser um exercício de percepção, habilidade e harmonização do movimento, para transformar o traçado das linhas em linguagem. O melhor caminho para este exercício é sempre artístico, pictórico, partindo da ação para alcançar a compreensão, para que o desenvolvimento da escrita não seja apenas um exercício de coordenação e habilidade, mas seja uma vivência humana, envolvendo sentimento, pensamento e ação.

 

1° ano

No 1°ano, a vivência do traçado das linhas se inicia com as crianças andando, como se estivessem formando as linhas com o próprio corpo, e andando com os olhos fechados, para que consigam perceber o sentido do movimento. Depois fazem com os braços no ar, em pé e sentados, os movimentos que representam o traçado das linhas, antes de começar a exercitá-los no papel. No início são usados giz de cera ou lápis de cor para traçar as linhas, evoluindo futuramente para lápis de escrita mais fina. O desenho de formas é uma prática constante, uma pequena parte da aula, mas sempre evoluindo em dificuldade, o que leva ao aprimoramento da escrita e do senso estético das crianças.

No primeiro dia de aula, do primeiro ano, são apresentadas a reta e a curva para as crianças, pois estas serão a base para o aprendizado do alfabeto em letra de forma maiúscula, que será ensinado em primeiro lugar. A introdução é feita sempre através de uma história que traga a imagem da reta e da curva. Um exemplo de história que pode ser usada é a do Rei Orgulhoso:

Um rei muito orgulhoso, que andava bem reto, não olhava para o chão, só olhava para o teto. Quando ficou velhinho e quis morar no Reino do Céu, ele não pode entrar, pois havia sido muito orgulhoso, nunca havia prestado atenção nas plantinhas, nos animaizinhos, nas pedras, nos rios. Ele deveria então curvar-se, voltar pelos seus caminhos e procurar pelo chão as três chaves de ouro dos grandes portões do Reino do Céu. Nessa procura então, agora olhando para o chão, ele aprendeu apreciar a natureza e toda sua beleza, ajudou muitos animaizinhos e acabou encontrando as chaves de ouro.

 

Desenhos de alunos do 1° ano do Colégio Waldorf Micael – São Paulo SP – Fotos de Rogério Abbamonte

Nesta fase os exercícios com as linhas são feitos ocupando espaços grandes, como uma folha de papel grande, ou uma pequena lousa individual, onde as crianças possam começar praticando com movimentos amplos. Também é importante que o professor dê uma certa solenidade a esta atividade. Quando for desenhar as linhas na lousa, seus movimentos devem ser lentos, compenetrados e em silêncio, e as crianças devem perceber que ele se esforça para conseguir o melhor resultado, da mesma forma que elas deverão fazer. Sentadas, as crianças são orientadas a desenhar mantendo a coluna ereta, os pés no chão e a aplicar o giz de cera com leveza sobre o papel.

A escrita, como a conhecemos hoje, levou milhares de anos para se desenvolver, e é muito abstrata para uma criança, pois as palavras não têm nenhuma relação estética com aquilo que elas representam. Mas diferente do alfabeto atual, nas antigas civilizações como a suméria, a egípcia e a maia, por exemplo, os primeiros alfabetos eram compostos por pictogramas, imagens que procuravam representar aquilo que significavam. Do ponto de vista da Antroposofia, a criança de 6/7 anos está vivendo uma fase que representa a infância da humanidade. Ao longo do 1° ano do Ensino Fundamental, cada letra vai sendo apresentada numa imagem criada a partir de uma história contada e representada num belo desenho de lousa. Há sempre uma intensa vivência sonora a cada letra trabalhada e das palavras e frases formadas, promovendo assim o desenvolvimento da consciência fonológica no processo de aquisição da escrita. Nesta idade, esta forma de ensinar envolve o sentimento da criança, criando uma ligação afetuosa com o que a professora lhe apresenta.

 

2° ano

Já no 2°ano, as crianças aprendem o alfabeto em letras de forma minúsculas. Nesse alfabeto há casos de espelhamento entre algumas letras, como o p com o q e entre o d com o b, e algumas crianças podem confundi-las, pois nem todas já estão com sua lateralidade desenvolvida. Isso será então objeto de trabalho com o desenho de formas espelhadas, para ajudar as crianças a perceberem essas diferenças.

Inicialmente o professor propõe várias brincadeiras para que os alunos experimentem corporalmente o espelhamento, brincando de espelho uns com os outros. Em seguida os alunos praticam várias formas de desenho espelhado, usando como referência um eixo vertical ou um eixo horizontal. São exercícios simples inicialmente, sempre usando a reta e a curva, com as quais os alunos já estão familiarizados, buscando sempre alcançar a simetria, mas que podem ir aos poucos ficando mais difíceis, usando o eixo diagonal e o espelhamento duplo. O professor procura suscitar no aluno a sensação de que falta alguma coisa, propondo um desenho que parece estar pela metade, e que eles precisam perceber e desenhar com a metade que falta

Desenhos de alunos do 2° ano do Colégio Waldorf Micael – São Paulo SP – Fotos de Rogério Abbamonte

A próxima variação a ser trabalhada é a simetria rítmica, com linhas retas e curvas formando ritmos. Nestas formas a reta é usada como elemento mais curto, e a curva como elemento mais longo, formando sequências justapostas ou espelhadas.

3° ano

No 3° ano, o principal objetivo do desenho de formas é auxiliar na introdução da escrita cursiva, com exercícios baseados na linha ondulada. A criança aos 9 anos passa por uma fase muito importante para a afirmação do seu Eu, sua personalidade, e é nessa época que ela começa a formar sua escrita individual.

“Os exercícios baseados na linha ondulada, que demandam o fluxo do traçado, necessitam ser constantemente realizados antes da introdução da escrita cursiva. Todo alfabeto cursivo deriva da linha ondulada e de duas transformações da mesma: laçadas e hastes. Na laçada, a onda se eleva e dobra; na haste, ao elevar- se, a onda se aperta, resulta em uma ponta e retorna.”(2) Luíza Lameirão

Desenhos de alunos do 3° ano do Colégio Waldorf Micael – São Paulo SP – Fotos de Rogério Abbamonte

Também neste trabalho, a prática deve ter início com movimentos amplos, em folha grande de formato A3 dobrada ao meio, depois dobrada em quatro, e com lápis de cor grosso, ou com giz de lousa em pequenas lousas individuais, antes de passar para as folhas A4 e para os cadernos. O professor pode propor inúmeras variações de traçados e espelhamentos, aumentando o grau de dificuldade, antes de introduzir o alfabeto cursivo.

No 3° e no 4° ano, os desenhos de forma espelhados, que no segundo ano são feitos com base num eixo vertical ou num eixo horizontal, passam a ser feitos também com estes dois eixos cruzados para trabalhar a simetria de quatro lados, ou central.

Desenhos de alunos do 4° ano do Colégio Waldorf Micael – São Paulo SP – Fotos de Rogério Abbamonte

A prática do desenho de formas nestes primeiros anos escolares representa uma introdução à Geometria, que mais tarde evoluirá para o estudo mais abstrato e consciente. Para a criança de 9 a 10 anos também introduzimos formas baseadas no círculo, sempre desenhadas à mão livre.

No 5° ano, quando é estudada a Grécia, o desenho de formas pode ser feito buscando reproduzir as formas dos ornamentos dos escudos dos soldados gregos, por exemplo.

Desenhos de alunos do 4° e 5° ano do Colégio Waldorf Micael – São Paulo SP – Fotos de Rogério Abbamonte

Por ocasião do estudo da botânica, a representação das formas da natureza é um rico motivo para belos desenhos. Até aqui a geometria é exercitada sempre à mão livre, sem instrumentos.

Desenho de formas da natureza – Escola Araucária – Camanducaia MG – Foto de Rubens Salles

Assim, o desenho de formas, além de ser a base para o desenvolvimento da escrita, também enriquece o estudo vivenciado de outras matérias. O seu uso também pode auxiliar no tratamento terapêutico de crianças que dele necessitem.

No 6° ano tem início o estudo da geometria com o uso de instrumentos, como régua, compasso, transferidor e esquadros. A partir de agora então, é preciso que os desenhos apresentem uma precisão geométrica, não podem sobrar ou faltar espaços. Quando falta precisão o próprio aluno já percebe, e precisa encontrar onde foi a falha, num exercício de autocorreção. No 7° ano estudam a geometria plana e no 8° ano aprendem perspectiva e demonstrações geométricas.

No ensino médio estudarão sólidos platônicos, seções cônicas, curvas de revolução, geometria descritiva e geometria projetiva entre outros temas.

Exposição de desenhos geométricos – Escola Waldorf Quintal Mágico – Paraty RJ – Foto de Renata Lopes Araújo.

“Na Geometria, o pensamento vira Arte, a Arte ganha estrutura, a estrutura ganha cor. Os instrumentos, com sua precisão, permitem que as mãos reproduzam algo de natureza abstrata, que se revela na Natureza, perfeito na totalidade, mas sempre aberto para variáveis novas. A Geometria é a “escrita dos deuses”. As crianças e jovens sempre se encantam com o desenho geométrico. Quando o currículo está a serviço da descoberta e do espanto, o ser humano aprende a amar e respeitar o conhecimento.”(3) Maristel Almeida Gomes

Desenho de aluno do 6° ano – Colégio Waldorf Micael – São Paulo SP – foto de Rogério Abbamonte.

Escola Waldorf Querência – Porto Alegre RS – Desenho e foto da professora Liége Leite.

scola Waldorf Querência – Porto Alegre RS – Desenho de lousa e foto da professora Liége Leite.

 

Assim, o desenho de forma, além de ser a base para o desenvolvimento da escrita, também enriquece o estudo vivenciado de várias outras matérias. O seu uso também auxilia no tratamento terapêutico de crianças especiais.

  1. Capítulo baseado em LAMEIRÃO, Luíza Helena Tannuri. Do Movimento ao Traço e à Escrita: – Ed. João de Barro, 2016
  2. Idem LAMEIRÃO, op. cit., pg. 69.
  3. Professora de geometria da Escola Querência – Porto Alegre SP

 

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