Capítulo do livro Pedagogia Waldorf 100 anos+
Turma da formação para professores Waldorf mostrando seu trabalho de bordado, com a professora Mônica Stefanski - Formação Waldorf Viver - Embu das Artes SP - foto de José Carlos Neves Machado.
“Ao conquistar a verticalidade o homem ganhou algo que o diferenciaria em definitivo de todos os outros seres, ajudando-o a destacar-se enquanto espécie: suas mãos.” Neli Ortega
Nas escolas Waldorf dá-se grande importância ao trabalho com as mãos. As mãos humanas compõem um sistema neuro sensorial, muscular e esquelético de alta complexidade, que nos permite realizar as mais diversas tarefas. Elas trabalham de forma cooperativa e representam nossa individualidade, pois não há duas mãos iguais. A densidade dos terminais nervosos em nossas mãos, principalmente nas pontas dos dedos, nos permite sentir texturas, temperatura, dimensões, flexibilidade, peso, dureza etc, e através dessa sensibilidade tátil nosso cérebro consegue ‘enxergar’ pelos nossos dedos.
Segundo os estudos paleontológicos, nossa espécie evoluiu a partir do homo erectus para o homo habilis e depois para o homo sapiens, e até hoje cientistas tentam descobrir se a nossa habilidade manual é um resultado da inteligência humana, ou se ela é precursora dessa inteligência. A importância da exercitação dessas habilidades é comprovada pelo grande interesse das crianças, desde a mais tenra idade, em explorar com suas mãozinhas tudo o que estiver ao seu alcance. A habilidade com os dedos, segundo Karl-Reinhard Kummer, cria um pensamento ágil. “A criança em idade escolar exercita-se até chegar a realizar habilmente qualquer atividade manual. Uma atividade externa pressupõe sempre uma atividade espiritual íntima. Quanto mais esmerada for essa atividade, mais sutil será também o pensamento”.(1)
Já vimos até aqui algumas atividades manuais como a escrita, o desenho de formas, o desenho, a pintura com aquarela e tocar um instrumento musical. Fazem parte também do currículo Waldorf os trabalhos manuais, cujos produtos além do aspecto artístico, terão uma funcionalidade prática e são realizados em momentos específicos e adequados à prontidão das crianças.

Professora Daniela Roman ensinando tricô aos alunos do 1° ano – Escola Rural Ipê Amarelo -Atibaia SP – foto do acervo da escola.

Aluna do 4° ano fazendo bordado em ponto cruz. – Espaço Livre Ecoara – Valinhos SP – foto de Luciano Silveira da Fonseca.
“A criança deve sentir orgulho do trabalho que fez. Isso fortalecerá sua autoestima e produzirá nela um senso estético e um senso de verdade sobre o que fazemos. […] Passamos a amar o que fazemos e percebemos que devemos fazer o que amamos. Isso enobrece o sentido do trabalho e do fazer humano.”(3) Neli Ortega
Principais trabalhos manuais por série
As atividades manuais utilizando fios e linhas são muito importantes nos primeiros anos do ensino fundamental. No 1º ano, as crianças (meninos e meninas) aprendem a fazer tricô, um ponto simples sem avesso. Como algumas ainda não têm a mão predominante bem definida, o tricô é mais indicado nessa idade, pois o trabalho é feito com as duas mãos usando duas agulhas. Em várias escolas as crianças têm a oportunidade de conhecer o processo produtivo da lã antes de aprenderem a tricotar. Aprendem como ela é cardada e como é feito o fio, e, dependendo da região, vão ao campo assistir a tosquia de uma ovelha. Também participam da confecção das agulhas que vão utilizar, feitas de bambu. Elas aprendem a tricotar pequenos retângulos e quadrados coloridos e com eles são feitas bolas, capas para flautas, gorrinhos, pastores, carneirinhos, passarinhos e outros animais. Além da relação dessa atividade com a matemática, pela necessidade de contar e calcular os pontos, tricotar é um intenso exercício de vontade e habilidade.

Trabalhos de tricô no 1° ano – Escola Municipal Araucária – Camanducaia MG – foto de Rosineia Fonseca.
Há também trabalhos manuais feitos por ocasião de eventos comemorativos, como a pintura de ovos na época da Páscoa e a confecção de lanternas na época das festas juninas, geralmente junto com os pais.

Aluna do 2° ano fazendo porta garrafa d’água de crochê – Escola Waldorf Michaelis – Rio de Janeiro RJ – foto de Nirvana Prem.
No 2º ano o crochê costuma ser o trabalho manual mais importante. Nessa época é importante a criança fortalecer a habilidade da sua mão dominante e definir sua lateralidade. O crochê é ideal para isso, pois exige uma motricidade fina da mão que trabalha com a agulha, apenas apoiada pela mão colaboradora, que ajuda a segurar o trabalho e a conduzir o fio. A empunhadura utilizada para segurar a agulha guarda semelhança com a empunhadura de um lápis, sendo assim um trabalho que também representa um treinamento para a escrita. As crianças aprendem a fazer tapetes, bolsas, cordas, almofadas, colchas etc., e tornam-se mais conscientes das suas habilidades manuais.

Aluno do 3° ano fazendo tricô com avesso – Espaço Livre Ecoara -Valinhos SP – foto de Patrícia Palmiro.

Bonecos de tricô feitos pelos alunos do 3° ano – Escola Municipal Araucária – Camanducaia MG – foto de Rubens Salles.
No 3º ano aprendem o tricô com mais de um ponto, onde os trabalhos passam a ter um avesso, onde há um ponto específico que deve ficar para o lado de dentro e o outro que deve ficar para o lado de fora, exigindo bastante concentração e uma técnica mais apurada. O principal produto feito nesse ano é um(a) boneco(a) de tricô, que traz o desafio de representar a figura do ser humano. Exige manter a proporcionalidade das peças e trabalhar de forma mais planejada e ordenada, e a escolha das cores atua no fortalecimento do senso estético. A persistência é necessária para o sucesso do trabalho.
Nesse ano, o principal objetivo pedagógico é que as crianças vivenciem de que forma o ser humano ocupa seu lugar no mundo. Uma das atividades realizadas com esse objetivo é o estudo dos diversos tipos de habitação, e cada uma planeja e constrói, com a ajuda de pais e mães, a maquete de uma casa. Os estilos são os mais diferentes possíveis, e sempre os trabalhos são expostos depois na exposição pedagógica anual.

Maquetes de casas na exposição pedagógica do 3° ano – Escola Waldorf Querência – Porto Alegre RS – foto de Juliana Berriel de Medeiros.
No 4° ano são trabalhados o bordado em ponto cruz e a costura, onde o trabalho deixa de ser de fios sobre fios, e passa a ser de fios sobre a superfície de um tecido. Os padrões simétricos e geométricos desses bordados exigem mais planejamento e demandam uma abstração maior do que nos trabalhos anteriores. Para escolher que desenho bordar, a liberdade criativa da criança tem um grande leque de possibilidades. Elas fazem almofadas, bolsas, quadros, caminhos de mesa, jogos etc, e também bordam lindas capas de cadernos.

Trabalhos do 4° ano – Escola Municipal Araucária – Camanducaia MG – foto de Rubens Salles.
Os trabalhos manuais também são feitos para enriquecer a vivência de outras matérias. Na época de zoologia, por exemplo, entra a modelagem em argila, onde o objetivo é modelar alguns dos animais estudados. Paralelamente ao desenho de formas, em algumas escolas as crianças também aprendem a fazer os diversos tipos de nós, pois guardam correlação com a simetria das formas, e também com o ponto cruz, com o cruzamento das linhas. A cada ano os trabalhos manuais exigem mais motricidade fina e um pensamento mais abstrato, e levam a um maior desenvolvimento das habilidades, do senso estético, e ao fortalecimento da individualidade.

Aluna do 5° ano fazendo tricô com cinco agulhas – Espaço Livre Ecoara – Valinhos SP – foto de Paula de Almeida Anjos.
No 5° ano, idade em que as crianças estão começando a se despedir da infância, o desafio é confeccionar para si próprias uma meia de lã em tricô, que é feita com cinco agulhas. É um trabalho tridimensional de precisão. Elas precisam tecer duas meias iguais em dimensão e cores, e nas proporções corretas, de acordo com suas próprias características físicas. Em regiões de clima quente pode ser usada linha de algodão, em vez de lã, para fazer pantufas, por exemplo.
A modelagem com argila continua este ano. Na época de zoologia, fazem mamíferos, e na época de botânica fazem cogumelos, assim como utensílios mais variados, como pequenos vasos, potes etc. Em marcenaria os alunos aprendem a fazer uma goiva, que será utilizada nos trabalhos com côncavo e convexo, que farão no 6° ano.
Na época da história do Egito, há escolas em que as crianças aprendem a fazer papel de papiro, e depois pintam nesses papéis pictogramas egípcios.
Tricô com 5 agulhas no 5° ano – Escola Municipal Araucária Camanducaia – MG – foto de Rubens Salles.
Cerâmica no 5° ano – Escola Municipal Araucária Camanducaia – MG – foto de Rubens Salles.
No 6° ano, acompanhando a época de zoologia, os alunos fazem animais mamíferos de pano. Eles aprendem a fazer os moldes de papel, cortam o pano, costuram e enchem com algodão. Em marcenaria aprendem a esculpir a madeira para fazer uma colher e outros utensílios, trabalhando o côncavo e o convexo, o que exige bastante esforço e vontade, e durante a época de astronomia, aprendem a fazer um relógio de sol em madeira. Quando estudam a ascensão e queda do Império Romano, em algumas escolas os alunos fazem utensílios que eram usados pelos romanos, como escudos, estandartes e sandálias de couro, e realizam uma marcha romana nas aulas de educação física. Acompanhando a época da idade média, há escolas onde fazem mosaicos usando como tema os vitrais de catedrais da idade média. Durante a época de geografia, quando estudam a Europa, há escolas onde os alunos fazem bonecas(os) representando as principais culturas europeias.
Como se pode notar, dentre as atividades apropriadas para cada idade, há uma grande variedade de trabalhos manuais que são feitos de acordo com o tema estudado na época, com a cultura local e a disponibilidade de material apropriado.

Fazer mamíferos de pano e esculpir em madeira são atividades do 6° ano – Escola Municipal Araucária – Camanducaia MG – foto de Rubens Salles.
No 7° ano aprendem a fazer um sapato, que pode ser de pano com sola de couro ou todo de couro. Aprendem a fazer o molde do solado e do cabedal – que é a parte de cima do calçado – com as medidas do próprio pé. Cortam o material, ornamentam o cabedal com um bordado e costuram o viés com a sola.
Na marcenaria fazem uma gamela esculpida em madeira dura, em formato da escolha de cada aluno(a). Durante a época do Renascimento, quando estudam Leonardo Da Vinci, também constroem um brinquedo de madeira articulado, que use roldanas ou alavancas, por exemplo. O currículo deste ano também inclui a costura manual e do bordado.
No 8° ano, na época em que estudam a revolução industrial, aprendem a tecer com um tear, a costurar com máquina e todo o processo de produção. Aprendem como são tiradas as medidas, feitos os moldes, como se corta, se alinhava e se costura. Este aprendizado coincide com a preparação da peça teatral do 8° ano, que é o principal trabalho da classe. Fazem uma pesquisa sobre os personagens e o figurino da época, e trabalham para produzi-lo. A construção dos adereços e dos cenários também exige muito trabalho manual, inclusive de marcenaria, e costuma envolver a participação dos pais e mães ou responsáveis, que sempre ajudam muito nessa época.
Trabalhos em bordado do 9° ano – Escola Municipal Araucária – Camanducaia MG – foto de Rubens Salles
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