Capítulo do livro Pedagogia Waldorf 100 anos+
Pai da escola promovendo uma oficina de plantio para as crianças - Casa Áurea Escola Waldorf - Petrópolis RJ - foto de André Telles.
Sempre que possível as escolas Waldorf se estabelecem com amplas áreas verdes e até na zona rural, para privilegiar na educação um intenso convívio dos alunos com a terra e todos os elementos da natureza. Mesmo as escolas urbanas procuram aproveitar ao máximo os espaços disponíveis que possam ser usados para atividades como jardinagem e horticultura, ou simplesmente para as crianças poderem brincar na terra e subir em árvore.
Hoje em dia, com grande parte das crianças morando em apartamentos, é muito importante e necessária uma ação pedagógica de aproximação com a terra, com a ‘Mãe Terra’, que nos proporciona a vida. É preciso também que elas aprendam a valorizar o papel dos agricultores, que realizam um trabalho duro, essencial e pouco reconhecido.
Nas escolas Waldorf a vivência da agricultura é realizada de forma pedagógica, pois é uma atividade plena de sentido, que exige dedicação e disciplina, atua diretamente sobre a força de vontade e com reflexos diretos na educação alimentar e ambiental. É muito enriquecedor para sua formação a criança ter a oportunidade de plantar, cuidar, regar, ver crescer, colher, preparar e comer aquilo que plantou. Ela aprende a valorizar mais os alimentos naturais e a evitar seu desperdício, e as famílias têm a oportunidade de enriquecer sua alimentação, pois as crianças passam a gostar mais das verduras, legumes e frutas. Através do trabalho na terra também é possível tratar crianças que tenham alguma necessidade terapêutica, tanto no comportamento quanto na aprendizagem.
Alunos da educação infantil ajudando a colheita no pomar – Jardim Florescer – Botucatu SP – foto de Andréa Cristina Gomes.
Os alunos do maternal numa vivência na horta em dia chuvoso – Waldorf Flor de Lótus – Bauru SP – foto de Andreza Shichieri Mota.
Desde o jardim de infância as crianças já têm contato com a terra, e a oportunidade de plantar sementes e acompanhar como elas se transformam em plantinhas, no jardim ou na horta. Nessa idade elas também já ajudam a professora a preparar o lanche, lidando com frutas e legumes, e há pequenas histórias que proporcionam para as crianças uma vivência lúdica desse tema. Existe um acervo de poemas, histórias e peças de teatro que ajudam a fortalecer essa vivência desde o 1° ano com belas imagens, além de obras criadas ou adaptadas pelos próprios professores para seus alunos. No poema “A Semente”, por exemplo, a criança vivencia a imagem do desenvolvimento de uma árvore a partir de sua semente, o que, futuramente, aprenderá de forma científica, nas aulas de botânica.

Aluna da Creche Monte Azul plantando sementes – São Paulo SP – acervo da escola.
A SEMENTE(1)
Semente misteriosa,
que caiu da planta ao chão,
que segredos ela guarda
no fundo do coração?
“Eu sou o menor presente
que foi posto em tua mão,
pois parece não ser nada
este pequenino grão.
Mas dele verás crescer,
numa fecunda estação,
uma árvore frondosa
subindo para a amplidão!
Toda a árvore, todinha,
continha o pequeno grão,
esperando o bom momento
para enfim se erguer do chão.
Vale mais que muita joia
– como percebes então –
o presente pequenino
que foi posto em tua mão.”
No 2° ano as crianças têm uma época de estudo sobre o ciclo da água na natureza, em que conhecem todo o processo de forma lúdica, fazem passeios a riachos e nascentes e produzem belos desenhos sobre o tema. O poema ‘As Aventuras da Gotinha D’Água’ é muito usado nessa época e costuma ser representado como peça de teatro. Elas também têm uma época denominada Horta, Pomar e Jardim, onde essas atividades são experimentadas pelas crianças. Há, por exemplo, uma linda peça de teatro intitulada ‘A Horta Alegre’, na qual as crianças vivenciam a integração do trabalho do homem com a natureza, representando os lavradores, o sol, a lua, a chuva e as diversas variedades de plantas cultivadas, que a professora pode adaptar com as hortaliças próprias da região.

Alunos do 3° ano trabalhando na horta da escola com a professora Laiza Teixeira – Escola Rural Ipê Amarelo – Atibaia SP – acervo da escola

No 3° ano das escolas Waldorf as crianças têm a oportunidade de plantar um cereal. Ajudam a preparar a terra, plantam, cuidam, capinam, regam, acompanham todo o processo de desenvolvimento, colhem os grãos, moem para produzir a farinha e finalizam fazendo o pão. Em algumas escolas também fazem um forno de barro para assar esse pão. Nessa idade as crianças estão passando por um momento muito especial, pois já deixaram completamente aquele mundo de contos de fadas e fábulas, e agora estão prontas para experienciar como é a atuação do homem no mundo. Para isso, estudam várias profissões primordiais, conforme a região onde a escola está inserida, inclusive as profissões ligadas à terra e ao alimento, como o agricultor, o padeiro, o apicultor e outras. São exemplos de peças de teatro próprias para essa época ‘O Grão de Trigo’ e ‘Os Dois Moinhos’.(2)

Alunos do fundamental ajudando na plantação de milho – Escola Waldorf Rural Turmalina – Paudalho PE – acervo da escola.

Trabalhos da Época de Botânica no 5° ano – Escola Municipal Araucária – Camanducaia MG – foto de Rubens Salles.
No 5° ano há uma época de botânica onde os alunos estudam as plantas e seus aspectos fenomenológicos e começam a vivenciar a terra como um organismo vivo. Fazem passeios e aulas de observação na natureza e desenham plantas observadas. Além dos aspectos botânicos, aprendem poemas, lendas e músicas sobre as plantas, trava- línguas, história e muitas curiosidades culturais que contextualizam as plantas e suas qualidades. Com isso, o estudo da flora tropical é feito de uma maneira bem mais lúdica e profunda.

Estudo dos insetos sociais no 6° ano – Escola Municipal Araucária – Camanducaia MG -foto de Rubens Salles.
No 6° ano, quando tem início a puberdade e os alunos estão muito críticos, a agricultura oferece uma oportunidade importante aos professores, pois através dela os alunos podem ter uma vivência muito objetiva das relações de causa e efeito. Cada aluno pode ficar responsável por um canteiro numa horta ou jardim, e deve cuidar para que as plantas se desenvolvam bem. Este trabalho, sem nenhuma interferência de um adulto, permite que cada um perceba as consequências da sua atuação e faça sua autocrítica. Neste ano os alunos também estudam, em botânica, os insetos sociais – as abelhas, cupins e formigas – um tema diretamente relacionado com a terra e a natureza.

Alunos do 9° ano fazendo estágio agrícola, tirando ervas daninhas em uma plantação de morangos – Paineira Escola Waldorf – Juiz de Fora MG – foto de Victor Gomes L.Ferraz.

Estágio agrícola do 9° ano – manejando bananeiras – Escola Waldorf João Guimarães Rosa – Ribeirão Preto SP – foto de Cornélio A de Araújo Jr.
No 9°ano os alunos fazem um estágio em uma propriedade rural, conhecendo e experimentando a agricultura já em um nível mais profissionalizado.
Em todos os anos do ensino fundamental há oportunidades para voltar ao assunto no currículo, podendo variar um pouco de uma escola para outra. Muitas têm uma horta e até um pomar, que geralmente são cuidados pelos alunos e pelos pais. O trabalho com a terra ajuda a desenvolver a consciência ecológica, aprender sobre compostagem, refletir sobre a destinação de resíduos, a escolha dos alimentos e também tem um cunho social. Os mutirões para cuidar dos jardins, da horta e do pomar aproximam famílias e professores, e dão às crianças a oportunidade de ver os pais ajudando na sua escola. A vivência dessa comunidade fraterna e colaborativa é muito boa para elas. Algumas escolas também fazem parte de uma CSA – Comunidades que Sustentam a Agricultura, e tornam-se um ponto de venda de produtos orgânicos e biodinâmicos.










































